O voo
pousou pontualmente no Aeroporto Internacional de Pudong (China). Depois de 11
horas de voo, nada melhor que espaço para poder se esticar em terra firme.
Depois de
passar pela imigração sem maiores problemas, segui as indicações no aeroporto
para os “Ônibus para Longa Distância” (em inglês, claro). A paranoia do turista
estrangeiro que acha que pode estar fazendo besteira começa: “porque será que
não tem mais ninguém vindo pra essa região do aeroporto?”
Observo um
display com a lista de ônibus para longas distâncias: ônibus número 8 com
destino a Suzhou. Preço: 84 Yuan! Acho o acesso à estação de ônibus...
Chego
exatamente na hora do próximo ônibus. Passo pela verificação de bagagem (uma
máquina de raios-x e um detector de metais)... Chego ao guichê e falo (o que eu
imagino serem os fonemas de): “Suz-hu”. A moça me responde: “Su-Dzou?” teclando
algo no caixa e aparece no display um, entre um monte de símbolos, um número 8
e um número 84! Não tem errada! O número do ônibus e o preço! Sinalizo
positivamente e ela me vende a passagem para o próximo ônibus, que sairia em
meia hora, e me apontou a sala de espera.
Existem
dois portões de embarque. Em cada um tem um display com símbolos e com um
horário. Nenhum mostra o horário do meu ônibus. Hora de relaxar um pouco. Ligo
pra Grazi (e acordo ela pois são 07:20 em Barcelona) e digo que cheguei bem e
estou a caminho do hotel.
Depois de
quase meia hora de espera, aparece num dos displays “14:20”, o horário do meu
ônibus... Observo as pessoas levantando e encaminhando-se ao portão... Sigo o
fluxo, tentando parecer local, como se minha cara (com cavanhaque) não
denunciasse o quão longe de casa eu estava.
O ônibus...
Bem, vou chama-lo de marinete a partir de agora. A marinete não era nem nova,
nem moderna. O motorista, “Marivaldo”, olhou minha passagem, apontou pr’eu
colocar minha bagagem no bagageiro na parte de baixo da marinete e subir. Cinco
pessoas (eu inclusive) entraram na marinete!
Observo a
poltrona do motorista. Um balde daqueles plásticos grandes para tinta à
direita... Provavelmente pras “escarradas”. Marivaldo, que fala “chongas” de
inglês, entra, revisa uma papelada, dá a partida na marinete e arranca devagar.
Na saída da
estação, um posto de segurança da polícia para a marinete, verifica o que acho
ser a lista de passageiros, olha pra dentro da marinete, conta, devolve a lista
pra “Marivaldo” e desce. Abrem o portão da estação... A viagem está só
começando!
Minha
primeira observação: quase todos os taxis são “Santana”! Sim, o bom e velho
“Santana” da Volkswagen. Desde os primeiros modelos (mais quadradões) até os
últimos vendidos no Brasil (talvez até mais modernos). Me lembrou a São Paulo
de alguns anos atrás, onde fora de um aeroporto só se via taxis “Santana”.
Marivaldo
faz um retorno à esquerda e, ao sair do retorno, pega a estrada, mantendo-se à
esquerda (numa pista de três vias). Ele acelera até 100Km/h, coloca em
ponto-morto, espera a velocidade chegar a 80Km/h, engata a marcha outra vez,
acelera até 100Km/h... E fica nesse loop até que algum carro apareça diante
dele. Ele então buzina efusivamente... Pelo menos umas três vezes... E se não
saem da frente ele joga pra pista do meio, acelera e passa, voltando pra pista
da esquerda. Na primeira vez que “Marivaldo” fez uma ultrapassagem dessas, ele
quase acertou o muro à esquerda da pista, dando um baita susto em todos (os
cinco) passageiros! Uma passageira chegou até a gritar. Observando um pouco
mais, entendi o que havia acontecido: a direção tinha uma folga de uns 15 graus!!!
Tentando me
distrair com a paisagem, observo a linha do Maglev (http://pt.wikipedia.org/wiki/Transrapid_de_Xangai) ao lado da linha do metrô (ambas
em paralelo à estrada)... Vejo um Maglev passar... Mas “Marivaldo” se reta com
os carros à frente dele e, pra não passar por cima, segue ultrapassando pela
direita (depois de buzinar bastante).
Vejo todas
as marcas de carro... Das mais luxuosas às mais normais... Observo um Astra do
modelo novo que não é nem “Opel”, nem “Chevrolet”, nem “Vauxhall”... É “Buick”
(http://en.wikipedia.org/wiki/Opel_Astra)!
Fui
informado previamente que a duração da viagem seria de aproximadamente duas
horas. Perto de terminar a primeira hora, chegamos à estação rodoviária do
Aeroporto de Hongqiao, nossa primeira parada. Marivaldo desliga a marinete e
desce. E com ela, me vem uma dúvida: quantas paradas esse ônibus vai fazer? Eu
imaginei que ele pararia somente no centro Suzhou, onde pesquisei que ele
pararia... Como vou saber qual é a minha parada?
Bem, graças
à minha colega Sandra, que viajou a Pequim recentemente, eu levava comigo uma
lista de lugares (a suposta estação de destino em Suzhou, o nome e o endereço
do hotel, o nome das paradas de metrô e ônibus próximas ao hotel) com o nome em
inglês à esquerda e o nome em chinês à direita (thanks google translator).
De antemão
eu sabia que o Aeroporto de Hongqiao estaria mais ou menos à metade do caminho.
Depois de 5
minutos de espera, “Marivaldo” voltou. Entraram mais cinco passageiros.
Marivaldo ligou a marinete e voltamos à estrada.
Depois de
mais ou menos vinte minutos de estrada (com as buzinadas e ultrapassagens de
“Marivaldo”) eu finalmente vi uma placa com o nome “Suzhou” dizendo que
faltavam uns 64 quilômetros.
As placas
dos carros por aqui são azuis com letras brancas. A única vez que “Marivaldo”
tomou um “chega-pra-lá” na estrada, abriu passagem e ficou pianinho sem buzinar
pra reclamar foi quando passava um Audi A6 preto com placa branca com letras
pretas. Consultando a Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Vehicle_registration_plates_of_the_People's_Republic_of_China), veículos da polícia, militares e
das forças armadas usam esse tipo de placa. “Marivaldo” é “brabo” mas não é
burro não!
Alguns
minutos mais tarde, entramos uma zona urbana. Procuro ler as placas com os
nomes das ruas (as que tinham os nomes em inglês ao menos) e não reconhecia
nada que fosse próximo ao hotel que eu me hospedaria.
Observo
alguns passageiros arrumando suas coisas... A marinete para... “Marivaldo” diz
algo... Abre a porta e desce. Três passageiros descem também. Fico um pouco
apreensivo e mostro minha passagem a um rapaz que ainda estava na marinete
acompanhado de uma mulher e uma criança de colo. Para minha sorte, ele fala
comigo em inglês e me informa que aquela é uma parada fora do centro da cidade
de Suzhou, e que se o hotel onde eu me hospedaria fica no centro histórico da
cidade, certamente aquela não é a minha parada.
“Marivaldo”
entra na marinete, fecha a porta e arranca... Mais uns 5 minutos vejo uma placa
com indicação da rua onde fica o hotel! Imagino que a minha deva ser a próxima parada...
A marinete entra na rua... E vejo o hotel! Beleza! A marinete ainda avança pela
rua uns bons dois quilômetros e “Marivaldo” para e abre a porta. Mostro a ele o
endereço que eu tinha anotado do lugar que me informaram como referencia (em
chinês) e ele aponta pra uma loja do outro lado da rua. Perfeito!
Desço da marinete,
pego minha mala, e vou caminhando até o hotel... Recebendo (lá ele) olhares de
todos que passam por mim no sentido contrário... Olhares como aqueles que observam
um “bicho” raro pela primeira vez...
.
.
.
A viagem de
volta para o aeroporto não teve muitas aventuras. O motorista do ônibus (esse
sim posso chamar de ônibus) só acionou a buzina uma única vez!
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